Dois abertos à mudança – Prelúdio
"Então eles disseram que gostariam de reunir em Niez? Interessante..."
Com os olhos ainda na carta que tinha em mãos, Dohalim encostou-se na cadeira.
"Não há muito tempo até o dia que nos encontraremos."
"É verdade, e precisaremos partir imediatamente se quisermos chegar a tempo."
Kisara assentiu do outro lado da mesa. Os dois estavam na sala de um dos prédios de Pelegion, capital de Ganath Haros. Os documentos estavam empilhados de maneira organizada sobre a mesa, e as paredes ao redor estavam repletas de estantes de livros. Era uma sala planejada especificamente para o trabalho de escritório.
A armadura de Kisara não poderia estar mais fora de lugar, mas isso não parecia incomodá-la. Embora sua postura ereta contrastasse acentuadamente com a de Dohalim, eles estavam igualmente relaxados e trocavam olhares gentis.
"Mas ouvi dizer que outro grupo de Renans chegou recentemente. Você pode se dar ao luxo de viajar agora?"
Dohalim tornou-se uma espécie de representante dos Renans em Pelegion. Ele não estava em posição de ter muita liberdade. Mas ele não deu nenhum sinal de que isso o incomodava.
"Depois que você veio até aqui para me contar, não posso recusar."
"Isso não é justo, Dohalim."
Na verdade, o conteúdo da carta não era algo que pudessem ignorar. Falava de circunstâncias que não poderiam ser tratadas por ninguém além deles.
A carta era de Alphen e Shionne. Eles a enviaram para Kisara em Viscint e pediram que ela informasse Dohalim. E havia mais: Law deveria entrar em contato com Rinwell.
Rinwell morava em Viscint, assim como Kisara. Era irracional pedir a Law que viesse de outra cidade para falar com Rinwell ao invés de deixar Kisara cuidar disso.
Ela não sabia se tinha sido ideia de Alphen ou de Shionne, mas tinha uma vaga ideia da intenção por trás disso. A carta trouxe Kisara para Pelegion, onde ela estava agora cara a cara com Dohalim. Por mais irracional que fosse o pedido, esse foi o resultado.
Foi o mesmo com Law – quer ele tenha juntado as peças ou não.
"E você? As tropas lutarão com seu capitão afastado por um longo período."
"Não planejo demorar muito e deixei uma lista de exercícios para eles executarem enquanto isso. Quando eu voltar, vou testá-los para ver se seguiram corretamente."
"Muito responsável da sua parte."
Se fosse realmente um inconveniente, Kisara não estaria na sala agora. Ambos sabiam bem disso.
Treinar os soldados que protegem Viscint... Esse era o trabalho de Kisara agora. Ela era extremamente distinta em assuntos militares de combate e também passou a ser vista como um exemplo – uma combinação perfeita para a cidade onde Dahnans e Renans viviam juntos.
Kisara foi severa e inflexível em suas instruções. Dohalim sentiu certa pena dos soldados.
Ele jamais diria isso em voz alta, claro.
"Quando eu disse que iria para Pelegion, todos queriam saber quando eu voltaria."
"Tenho certeza de que tudo está funcionando muito bem sem mim."
"Nao é que eles precisem tanto de ajuda, mas eles amam você. Eles sentem sua falta."
"Todo mundo, você diz?"
Dohalim virou-se para Kisara com um olhar questionador. Mas Kisara evitou a pergunta, sem dizer nada.
Virando os cantos da boca de uma maneira quase mal-humorada, Dohalim levantou-se como se tivesse desistido.
"Bem, você me deu um bom exemplo. Deixe-me organizar as instruções e a transferência de poder para enquanto eu estiver fora."
Kisara já estava de pé antes que ele pudesse terminar. Como se fosse simplesmente a coisa natural a fazer.
"Vou te ajudar."
Por um breve momento, Dohalim pareceu abrir um sorriso, mas rapidamente levantou a mão para se recompor.
"Eu posso cuidar disso sozinho. Você não terá que esperar muito. Que tal ir dar um passeio?"
***
Saindo do prédio, fortes raios de sol cegaram Kisara momentaneamente. Ela olhou ao redor, com os olhos cerrados, e viu toda a imponência da fortaleza à sua frente. Castelo Del Fharis. Antigo lar do lorde que governava a região.
O castelo tinha um significado profundo tanto para Dahnan como para Renans. Sendo ele próprio um lorde, era impensável que Dohalim o usasse, mas era grande demais para ser demolido e, de qualquer maneira, eles não tinham mão de obra para isso. Assim, os portões do castelo permaneceram fechados e ninguém foi autorizado a entrar.
Quanto tempo levaria para que esta relíquia abominável finalmente desaparecesse? E o que era melhor: continuar a lembrar ou esquecer completamente? Memórias duras podem provocar dores, mas também podem servir como aviso ou lição.
Kisara tirou a velha pulseira que carregava consigo. Era uma lembrança de seu irmão que ela sempre manteve por perto. Ela olhou para o objeto por um momento, depois apertou-o como se quisesse confirmar que era real antes de guardá-lo novamente.
Havia apenas algumas pessoas andando pelas ruas, a maioria Dahnans ou pessoas que tinham vindo de outros países. Pelegion foi dividida em três níveis, com os residentes originais de Dahnan e os Renans vivendo em níveis separados. Kisara estava atualmente no nível mais alto.
Ela se lembrou da conversa com Dohalim momentos antes. Ela certamente confiava nele, mas seus temores não eram completamente infundados.
Kirasa olhou para cima. Ela podia vê-lo, flutuando mais alto do que as nuvens no céu azul, como pedras ou escombros no meio de uma correnteza.
Lenegis. Os restos do que outrora fora quartel-general dos Renans.
Lenegis foi destruída quando os mundos se fundiram um ano atrás. Os Renans conseguiram escapar em suas naves, mas foram forçados a confiar nos Dahnans que haviam escravizado até aquele dia. De repente, os Renans se viram sem os escravos e as máquinas das quais sempre dependeram. Muitos não tinham quase nenhuma das habilidades necessárias para fazer as coisas por conta própria.
Ignorar os Renans, que se ressentiam da queda em desgraça, teria inevitavelmente levado a mais conflitos com os Dahnans. Então, para evitar isso, era preciso reunir os Renans em um único lugar, e Pelegion foi escolhida como cidade-sede.
Dohalim foi essencial para isso tudo. Como último lorde, ele poderia manter a oposição sob controle, ao mesmo tempo que trabalhava como um amortecedor com os Dahnans para proteger os Renans de qualquer desvantagem excessiva. Além disso, ele poderia incutir autossuficiência e liderar os Renans em direção a um futuro de coexistência pacífica. Essa foi a missão que empreendeu e a visão de futuro que tinha em mente.
Ainda assim, embora alguns Renans fossem cooperativos, a maioria deles não era. Tendo seus próprios problemas em seu trabalho, Kisara achou isso frustrante. Na verdade, já fazia algum tempo que ela não conseguia visitar Pelegion assim.
De qualquer forma, muitas coisas mudaram desde o último ano.
Kisara examinou os arredores mais uma vez. Embora ainda se parecesse com a Dahna com a qual estava acostumada, tornou-se bastante diferente. A mudança mais notável ocorreu no céu acima. Era algo ainda mais evidente do que as ruínas de Lenegis. Não era o que estava lá; era o que havia desaparecido.
Rena. O outro dos Mundos Gêmeos que ocupava grande parte do céu de Dahna. Onde estivera, agora havia apenas um vasto céu azul, como se algo tivesse sido deixado de fora.
Dahna e Rena se tornaram uma só, mas isso não significava que Rena deixou de existir. Aquilo a lembrou de que ela estava vendo a perda de Rena através de sua posição em Dahna. Foi assim até para ela, que esteve envolvida em muitos dos acontecimentos que levaram ao estado atual das coisas. Então, como deve ser para a maioria dos Dahnans e Renans?
Sem saber o que procurava, Kisara olhou atentamente para o céu.
"Vê algo?"
Olhando para trás, ela viu Dohalim se aproximar pela porta da construção.
"Muito pelo contrário. Não vejo nada."
Seus olhos voltaram para o céu enquanto ela falava. Dohalim seguiu o exemplo dela e fez o mesmo.
"Não é diferente do resto do céu, mas não posso deixar de sentir que há um buraco enorme ali... Já faz um ano, mas às vezes ainda parece tudo confuso."
"Suponho que isso era esperado. O que tínhamos como certo, agora se foi."
"Se Lenegis ainda existisse, você não estaria aqui agora."
Dohalim provavelmente estaria estacionado em Lenegis se ainda estivesse em funcionamento. E chegar lá exigiria uma nave estelar, o que não era uma tarefa nada fácil para um Dahnan. A nave estelar Falneitz foi perdida na guerra há um ano. Ficar lado a lado assim provavelmente seria impossível se não fosse pelo que aconteceu. Afinal, o fato de Dohalim estar em Pelegion foi resultado da destruição inesperada de Lenegis.
Kisara se recompôs e fortaleceu sua determinação. Ela tinha que permanecer firme.
"Todos os preparativos estão completos, então?"
"Estão. Encontrei pessoas para cuidar dos assuntos urgentes. Não deve haver nenhum problema durante minha ausência temporária. Os preparativos para a viagem também estão completos."
Ele parecia orgulhoso de alguma forma. Kisara sentiu um sorriso irônico prestes a nascer, mas não permitiu que isso transparecesse em seu rosto. Ele estava avançando exatamente como havia jurado que faria há um ano. Ele parecia um pouco triste também, mas a alegria e o orgulho venceram no final. Ela teria que trabalhar tão duro quanto ele.
E com isso, sua testa se enrugou abruptamente.
"Kisara?"
Ficou claro pela voz dele que ele notou a mudança de humor dela. Ignorando sua preocupação, ela caminhou rapidamente até ele e apontou para seu peito.
"Minhas desculpas. Mas seu fecho está torto."
"Ah, eu devia estar com muita pressa."
"Agora que olho mais de perto, este também está um pouco estranho. Você anda sempre assim?"
"Estamos prestes a embarcar em um jornada, Kisara. Talvez não seja aqui que nossa atenção deva estar focada."
"Uma aparência confusa reflete uma mente confusa. Precisamos acertar esses detalhes porque é o ponto de partida da nossa jornada."
"Para ser justo... achei que isso fosse uma espécie de melhoria."
Kisara ajustou rapidamente suas roupas enquanto trocavam palavras.
Não importa o quanto o mundo tenha mudado, isso foi algo que não mudou em nada. Era mais uma questão de saber se isso algum dia mudaria.
"Eu aprecio isso."
Seu comentário abrupto e sério fez com que ele levantasse a cabeça, olhando-o nos olhos.
"Aprecia o que?""
"Ter as coisas exatamente onde elas pertencem."
As mãos de Kisara pararam de se mover. Demorou um tempo até que aquelas palavras fossem absorvidas. Ela fechou os olhos.
A energia parecia drenar seu corpo.
Ela soltou um pequeno suspiro.
Lentamente, suas pálpebras se ergueram novamente. Elas agora revelavam um olhar gentil, com um sentimento de companheirismo, mas destinado apenas a uma pessoa.
"De fato."
Os dois se deixaram mergulhar em tudo o que estava contido naquele pequeno momento.
Será que aquilo simplesmente passaria e desapareceria? Se sim, como isso aconteceria? Ela não sabia as respostas.
Mesmo assim...
Libertado do passado, focado solidamente no que estava por vir. O outro jurou servir de escudo, oferecendo proteção e apoio. Ambos vivendo para o futuro. Um futuro que lhes deu um lugar ao qual pertencer.
Avançar. Para o futuro. Jamais sozinho. Mesmo que seus corpos não estivessem fisicamente juntos. No entanto, começando tudo agora, mesmo que apenas por um tempo...
Eles compartilharam um sorriso singelo e assentiram.
Um estendeu a mão. O outro, aceitou.
"Vamos indo, Do."
***